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Férias e festas de fim de ano: como evitar a montanha-russa de glicose nas crianças?


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No fim do ano, eu vejo um padrão se repetir: a rotina muda, o sono bagunça, as refeições perdem horário, aparecem mais doces e bebidas açucaradas, e muitas crianças ficam “diferentes”. Mais irritadas, com fome o tempo todo, com mais desejo por açúcar, ou então sonolentas e sem energia.

Quando isso acontece, muita gente pensa só em “falta de limites” ou “fase”. Só que, em muitos casos, existe um fator fisiológico por trás: oscilações rápidas de glicose, como uma montanha-russa. E isso pode acontecer mesmo em crianças sem diabetes.

A boa notícia é que dá para reduzir esses picos sem entrar em guerra com a comida e sem transformar férias em um campo minado.


O que é a “montanha-russa” de glicose e por que ela aparece mais no fim do ano

A glicose é o “combustível” que circula no sangue. Quando a criança come, principalmente carboidratos de rápida absorção (doces, sucos, refrigerantes, bolos, biscoitos, pão branco), a glicose tende a subir mais rápido. O corpo responde liberando insulina para trazer essa glicose de volta a níveis adequados. Em algumas situações, esse sobe e desce acontece com mais intensidade, e aí aparecem sinais clássicos: fome pouco tempo depois de comer, irritabilidade, queda de energia, desejo por mais doce.

No fim do ano, isso fica mais comum por dois motivos bem concretos:


  1. Aumenta a oferta de açúcar “escondido” e bebidas adoçadas.A Organização Mundial da Saúde recomenda reduzir “açúcares livres” (incluindo açúcar adicionado e o açúcar presente em sucos) para menos de 10% das calorias do dia, e sugere que abaixar para menos de 5% traz benefícios adicionais, o que equivale a algo em torno de 25 g por dia em muitos contextos. A American Heart Association também aponta como razoável limitar açúcares adicionados em crianças e adolescentes (2 a 18 anos) a até 25 g por dia. No Brasil, entidades pediátricas repercutem esse mesmo limite como referência e alertam para o consumo elevado no dia a dia.

  2. A rotina muda (e isso mexe com apetite e metabolismo).Dormir pior, comer fora de hora e ficar mais tempo parado altera a autorregulação do corpo. E isso conversa diretamente com fome e escolha alimentar.



Sono, rotina e fome: por que isso muda tanto nas férias

Sono não é detalhe. Quando a criança dorme menos ou dorme em horários muito irregulares, o corpo tende a desregular sinais de fome e saciedade. Há evidências associando restrição de sono a alterações hormonais (como leptina e grelina) e a mudanças metabólicas, incluindo piora da tolerância à glicose e da sensibilidade à insulina em determinados cenários.

Na prática, o que eu vejo é: criança dorme tarde, acorda mais tarde, “pula” um café da manhã de verdade, belisca mais, pede mais doce, e chega na festa do fim do dia com fome acumulada. A chance de pico glicêmico aumenta.


Sinais de que a glicose pode estar oscilando demais

Nem toda oscilação é problema, mas alguns sinais são bem comuns quando a alimentação do dia está puxando para picos e quedas rápidas:

  • fome muito cedo depois de comer, principalmente vontade de doce

  • irritabilidade “do nada” ou mais explosões emocionais

  • sonolência ou queda brusca de energia após lanche muito doce

  • dificuldade de concentração e mais pedidos por “beliscos”

Agora, um ponto importante: existem sinais de alerta que não devem ser ignorados, porque podem indicar algo além de “exageros de dezembro”. Se a criança tiver muita sede, urinar muitas vezes, perda de peso sem explicação, cansaço intenso, fome exagerada ou visão embaçada, vale procurar avaliação e medir glicose. Isso aparece em listas de sintomas de diabetes em fontes como CDC, Ministério da Saúde e Sociedade Brasileira de Diabetes.



Estratégias práticas para evitar picos de glicose nas férias (sem radicalismo)

Eu gosto de trabalhar com o que é sustentável. Você não precisa “proibir tudo”. Você precisa organizar o contexto.


1) O doce funciona melhor quando não vem sozinho

Doce isolado (principalmente em jejum) tende a gerar pico mais rápido. A estratégia mais simples é: colocar o doce depois de uma refeição de verdade, que tenha fibra, proteína e alguma gordura, porque isso reduz a velocidade de absorção.

2) Crie “âncoras” na rotina

Mesmo nas férias, tente manter 2 ou 3 momentos do dia mais previsíveis:um café da manhã minimamente estruturado, um almoço e um jantar. O resto você ajusta. Isso já diminui muito o belisco e a fome acumulada.

3) Cuidado com bebidas açucaradas, elas são as campeãs de pico

Refrigerante, suco, chá pronto, achocolatado e “sucos de caixinha” somam açúcar com muita facilidade. No Brasil, o Ministério da Saúde orienta oferecer água no lugar de bebidas açucaradas e evitar açúcar em crianças pequenas, além de desencorajar ultraprocessados. E existe dado nacional mostrando consumo relevante de bebidas açucaradas por crianças, o que reforça que isso não é exceção.

4) Monte um “prato que segura”

Em festas e viagens, eu sugiro pensar assim: primeiro a base (comida de verdade), depois a escolha. Um prato com proteína + fibras (carne, frango, ovo, feijão, saladas, legumes, frutas inteiras) costuma segurar melhor a saciedade do que começar direto no pão, no salgadinho e no doce.

5) Movimento é aliado, não é punição

Criança em férias tende a ficar mais tempo sentada. Não precisa “treino”, precisa de corpo em movimento: caminhar, brincar, piscina, parque. Isso ajuda no sono e na regulação do apetite.


E se a criança tem diabetes tipo 1 ou usa insulina?


A lógica muda. Aqui, não é sobre “evitar doce”, é sobre planejar. Em manejo moderno, uma das ferramentas centrais é a contagem de carboidratos, que permite ajustar a dose de insulina ao que será consumido, com orientação da equipe. A Sociedade Brasileira de Diabetes aborda esse conceito em materiais educativos de nutrição para pessoas com diabetes. E a American Diabetes Association reforça que, em datas festivas, o foco é informação, moderação e estratégia (ler rótulos, planejar porções, não pular refeições), não perfeição.

Se seu filho já é acompanhado, eu sempre recomendo alinhar um “plano de férias”: o que fazer em dias de festa, como ajustar horários, como lidar com refeições diferentes e como monitorar com segurança.


Quando vale marcar uma consulta

Eu costumo orientar uma avaliação quando:

  • o padrão de fome, irritabilidade e ganho de peso se intensifica todo fim de ano e se repete

  • a criança “vive beliscando” e nunca parece saciar

  • há histórico familiar importante (diabetes tipo 2, dislipidemia, obesidade)

  • surgem sinais de alerta como sede excessiva, urinar demais, perda de peso e cansaço

Férias e festas não precisam virar culpa. O objetivo é atravessar dezembro com leveza, mas também com estratégia, porque isso define como a criança começa o ano.

Se você quer, eu posso te ajudar a montar um plano simples e realista para a rotina do seu filho, considerando idade, hábitos, escola, atividade física e o que a sua família consegue sustentar no dia a dia.


Eu atendo na Clínica HORMOKIDS, e estou pronta para avaliar e acompanhar o desenvolvimento do seu pequeno com todo o cuidado que ele merece. Agende uma consulta e tire suas dúvidas! 💙


📍SHLS Edifício Centro Clínico Sul, Torre 1, sala 113, 1º andar, Asa Sul, Brasília - DF.

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FONTES


1) World Health Organization (WHO). Guideline: Sugars intake for adults and children (2015).

2) World Health Organization (WHO). WHO calls on countries to reduce sugars intake among adults and children (News release, 04/03/2015).

3) Vos MB, et al. Added Sugars and Cardiovascular Disease Risk in Children: A Scientific Statement From the American Heart Association (2017).

4) Ministério da Saúde (Brasil). Guia alimentar para crianças brasileiras menores de 2 anos (PDF).

5) Ministério da Saúde (Brasil). Diabetes (diabetes mellitus): sinais e sintomas.

6) Centers for Disease Control and Prevention (CDC). Diabetes: Signs and Symptoms (updated 15/05/2024).

7) American Diabetes Association (ADA). Carb Counting and Diabetes.

8) American Diabetes Association (ADA). 7 Tips to Stay on Track with Your Diabetes Management During the Holidays.

9) Reynolds AC, et al. Impact of five nights of sleep restriction on glucose metabolism, leptin and appetite in young men. PLOS ONE (2012).

10) Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). Manual Oficial de Contagem de Carboidratos para Profissionais da Saúde (2009) (PDF).

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